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01 setembro, 2015

Leialogo: Intervenções poéticas nas ruas de Guaíba

Quem diria que uma publicação no Facebook fosse juntar incentivo à escrita e utilização dos espaços urbanos? Quem diria que um comentário e uma motivação se transformariam num projeto tão lindo e tão bem recebido pelo seu público?
Anderson Kubiaki (23), Marcelo Rutshell (29), Déia Aquini (32) e Juliane Chaves (25) são os responsáveis dessa façanha. Com um amor pela escrita, uma sugestão de intervenção urbana e a vontade indescritível de fazer acontecer, essas quatro pessoas criaram o projeto Leialogo, que consiste em inserir nos espaços urbanos (como postes, lixeiras e paradas de ônibus) da cidade de Guaíba poemas e poesias autorais de qualquer interessado em fazer o bem e propagar a arte. 
O projeto surgiu quando Anderson Kubiaki postou em sua conta do Facebook a seguinte frase "E se rolasse intervenções urbanas por Guaíba?", não muito depois disso, Déia Aquini comentou a possibilidade das poesias, e logo já colocou em prática: "Estava no serviço, deu uns minutos e eu pensei: quer saber vou imprimir e fazer agora. Peguei umas poesias da página do Potter [sic, apelido de Anderson] e vou colando até caminho de minha casa. Tirei umas fotos e marquei ele. E ele adorou e teve uma repercussão bacana." comenta Déia. "Daí então entrou o Marcelo Rutshell, que é um parceiro do Potter no Café Literário, me chamou no face e disse que topava se reunir também. Foi tudo muito espontâneo e poético mesmo." acrescenta.
O nome do projeto foi sugestionado por Marcelo quando fizeram uma espécie de brainstorm online. O participante conta que várias sugestões foram dadas e o próprio mandou vários nomes, tudo que vinha à mente, até que saiu leia logo e o grupo gostou. "Tinha a ver com a proposta e essa coisa da arte urbana ter um tempo de vida limitado por conta da ação do tempo." conta.

> Mas por que intervir?

Este tipo de atividade urbana é interessante por vários fatores. A ideia de espalhar poesias não é somente uma forma de deixar a cidade mais bonita e poética, mas também um incentivo à cultura. principalmente leitura e escrita. É importante destacar que, conforme os dias vão acontecendo e nós nos prendemos em nossas rotinas de trabalho tão exaustivas quanto uma maratona, perdemos os pequenos detalhes de muitas coisas ao nosso redor, porém isso pode mudar. Mudamos isso quando modificamos uma pequena cena, que, mesmo sendo por um detalhe, se torna um momento nas nossas vidas e com certeza a ação pensada por essas pessoas criaram momentos na vida de vários indivíduos que talvez, e muito provavelmente, tinham perdido a esperança de ver uma cena se transformar em uma momento, uma lembrança e, quem sabe, um sorriso.

Reunião da equipe Leialogo, Marcelo (E), Déia (C) e Anderson (D) [Foto Reprodução/Facebook].

Integrantes fazendo a intevenção. [Foto Reprodução/Facebook]



Com osorganizadores do projeto, fiz uma breve entrevista com cada um deles e você pode ler a seguir:

Juliana Coin: Como surgiu a ideia?

Anderson Kubiaki: Bom, eu tinha feito uma pergunta no facebook, algumas pessoas curtiram e comentaram, uma delas foi a Déia que pilhou tanto e já saiu colando algumas poesias minhas em postes. Depois conversando no Café Literário sobre realizar mais intervenções o Marcelo veio falar comigo para colocarmos em prática, chamamos a Déia que convidou a Juliana para ajudar, marcamos tudo pelo facebook e num domingo saímos colando as poesias.

Déia Aquini: Ele postou "E se rolasse intervenções urbanas em Guaíba?". Eu li, e respondi: "espalhar poesia nos postes" às 17:42. Estava no serviço, deu uns minutos e eu pensei, quer saber vou imprimir e fazer agora. Peguei umas poesias da página do Potter "Miudezas Poéticas" e vou colando a caminho de casa. Tirei umas fotos e marquei ele. E ele adorou e teve uma repercussão bacana. Foi tudo muito espontâneo e poético mesmo.

Juliana Coin: Como surgiu o nome Leialogo?

Anderson KubiakiAh, o nome  saiu de um brainstorm e a ideia é passar a mensagem que tudo é passageiro, a arte de rua não foi feita para durar muito tempo e por isso é melhor a pessoa ler logo a poesia antes que a chuva descole, o ônibus passe, o tempo voe...

Déia Aquini: No bate papo no facebook, entre nós três, surgiu o nome Leialogo, inspirado pelo Marcelo. Tivemos essa imersão, e de lá pra cá, a página já tem quase 500 curtidas e o retorno das pessoas com nossas intervenções é o que dá mais vontade de continuar.

Marcelo Rutshell: Fomos dando sugestões e eu mandei vários nomes, tudo que vinha à mente, até que saiu leia logo e o pessoal gostou, porque tinha a ver com a proposta e essa coisa da arte urbana ter um tempo de vida limitado, por conta da ação do tempo. A parte de criar a página foi mais para divulgação mesmo, um canal prático para o contato com o público que atingimos, aqueles que leem e também os que escrevem, já que é  também a página o principal canal pelo qual recebemos novos poemas.

Juliana Coin: Enquanto rolavam as intervenções vocês notaram a reação de alguém, mesmo que curiosidade?

Déia Aquini: 
Na hora, rola mais curiosidade. Senti mais o retorno sobre poesia depois, nas mensagens do pessoal no face e pessoalmente.

Marcelo Rutshell: Tenho certeza da boa recepção desta ação, ao menos até agora não recebemos nenhuma mensagem negativa, pelo contrário, algumas pessoas nos enviaram mensagens, através da page, só pra dizer que gostaram da ideia e até agradecer. 

Juliane Chaves: As intensidades de cada um são diferentes, mas percebi na maior parte do tempo olhares de curiosidade seguidas de encantamento. Não vi nenhum olhar de "desaprovação". Dos amigues [sic] do leialogo eu sou a que mora mais afastada de onde fizemos as colagens, então não sei como as pessoas estão reagindo no real,  mas no virtual está lindo!

Juliana Coin: Qual importância isso tem pro cenário cultural da cidade? Essa atitude modifica ou influência a cultura na cidade?

Anderson Kubiaki:  Acho que a importância quem dá vai ser as pessoas que leem as poesias, queremos que sejam importante para elas, mas é claro que a intenção de tirar a poesia da gaveta e expor na rua é importante, é uma valorização e um espaço para os escritores independentes da cidade.

Déia Aquini:  Desperta uma consciência cultural e suaviza o caos e dia-a-dia, indo pra casa, pro trabalho, olhar uma poesia, até então num lugar inusitado, Surpreende e causa esse ruído poético no cotidiano, como o Potter gosta de falar. Tem muita gente interessada. E isso é muito bacana e as pessoas aceitam muito bem esse apelo poético. Estamos organizando esse material e ainda alinhando as coisas, mas temos um foco bem grande nos poetas locais

Marcelo Rutshell: Tenho certeza da boa recepção desta ação, ao menos até agora não recebemos nenhuma mensagem negativa, pelo contrário, algumas pessoas nos enviaram mensagens, através da page, só pra dizer que gostaram da ideia e até agradecer. Se modificaremos alguma mudança no cenário cultural da cidade, ainda não sei, só daqui algum tempo para sabermos, mas queremos mudar mesmo é o dia de alguém. Um "bom dia" pode mesmo mudar o dia de alguém e nem sempre isso vem de quem está ao nosso lado, de repente a "dona Maria", que volta cansada do trabalho, passa por uma de nossas poesias e lá diz algo positivo, isso pode arrancar um sorriso dela, dar um ânimo. Nessa mudança eu acredito.

Juliane Chaves: Uma amiga comentou que o impacto nela foi que depois de ler o poema da Déia Aquini, ela começou a criar vários poeminhas...

Juliana Coin: O projeto vai continuar acontecendo? 

Déia Aquini:  Pela internet trocamos diariamente coisas. Todo mundo trabalha, estuda e tem mil atividades, mas queremos continuar nesse ritmo. Um encontro semanal.

Marcelo Rutshell: Estamos com muitos planos em tão pouco tempo, por sorte somos mentes inquietas, em toda conversa entre nós, surge alguma proposta nova de intervenção. Começamos pelo centro [da cidade], vamos para os bairros, recebemos poemas de poetas de outras cidades e até de outro estado. Temos planos de levar também poemas de poetas locais para outras cidades e, porque não, outros estados.

 Juliane Chaves: O espírito é que a gente possa envolver e inspirar cada vez mais as pessoas a levar poesias pro mundo,  digo mundo porque meu desejo é também sair da zona de conforto e levar poesia pra outras cidades, estados e galáxias. 

Juliana Coin: Qualquer pessoa pode participar?

Anderson Kubiaki:  Claro, podem nos enviar poesias pela página Leialogo, se quiserem participar da ação na prática ajudando colar as poesias é só entrar em contato com um de nós. Já teve pessoas interessadas em colar em outros bairros, achamos isso muito massa.

Marcelo Rutshell: Contamos com colaboradores esporádicos, algumas pessoas entraram em contato conosco oferecendo ajuda, na medida do possível e sendo viável, incluímos esta ajuda. E, só em enviar seu poema, não arrancar os já colados, já é uma baita ajuda.

 Juliane Chaves: Sim, e tem várias pessoas querendo somar com a gente. Até porque a nossa ideia é que a galera siga junto compartilhando ideias, unindo movimentos e somando energia.  A arte só existe se compartilhada.


Juliana Coin: Então, pra terminar, qual a mensagem que vocês transmitiriam para o público?

Anderson Kubiaki:  Leialogo, pois os poemas transmitem felicidade.

Déia Aquini:  No meio da rotina, é importante desconstruir o olhar e perceber as belezas na nossa volta, que pode ser uma poesia, ou a natureza, uma pessoa querida, um pássaro, uma flor quem sabe? Alguns instantes pode mudar o dia e suavizar a vida.

Marcelo Rutshell: Diria que participem, a mudança começa por cada um de nós.

 Juliana Chaves: Leia mais, escreva mais, viva o real e não o virtual, a vida é hoje.

[Foto Reprodução/Facebook]

[Foto Reprodução/Facebook]

[Foto Reprodução/Facebook]

[Foto Reprodução/Facebook]


O  projeto Leialogo tem sido tão estrondoso que foi notícia em veículos como Zero Hora, Diário Gaúcho e Jornal O Centro. Por enquanto o projeto têm acontecido apenas no centro da cidade de Guaíba, mas, como foi dito, a tendência é crescer. Para os interessados em participar, você pode encontrar a página do Leialogo clicando aqui.
Que projetos como esse se disseminem e cresçam com essa mesma intensidade. Convivemos muito com notícias trágicas, crises de todos os tipo e muita energia negativa vindo de todos os lados, de vez em quando surgem anjos como estes e nos ajudam a relembrar que ainda existe razões pra acreditar. Participe e leia logo, porque o tempo passa e nós nem vemos.